sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A FAMÍLIA "PAM" a DEMÊNCIA e a VIDA NO CAMPO

O British Medical Journal comenta que as pessoas de mais idade que usam os Benzodiazepínicos (Diazepam, Clonazepam e outros “pam”) acima de 3 meses têm 51% mais chance de desenvolver demência do que aquelas que não usam. Isso me deixou bem preocupado.

Ocorre que estas substâncias estão se tornando parte normal da vida das pessoas. Mesmo na zona rural. Antigamente o interior (como nos referimos ao campo) estava associado a uma vida simples e tranquila de um lugar em que as pessoas viviam uma vida mais harmônica e dormiam bem. Hoje a realidade é bem diferente.

Há alguns anos estudos vêm mostrando que o consumo de medicações para dormir e para tranquilizar vem aumentando nas áreas distantes dos grandes centros. Constato isso na minha vida aqui no Vale do Capão, aonde atendo aos vizinhos há 31 anos. Com alguma frequência recebo pedidos para renovar receitas de Clonazepam, pois as pessoas facilmente se viciam nesta medicação e não conseguem mais se livrar. Tento demovê-las do uso sem sucesso. Até o presente só consegui com aqueles que começaram a usar há pouco tempo.

O ritmo de vida que caracterizava as metrópoles em grande medida vem sendo imitado no mundo camponês. As pessoas hoje têm maior quantidade e variedade de compromissos. A comunicação via televisão ou internet estão aproximando as pessoas de forma acentuada de modo que a sistemática de vida das daqueles que vivem em diferentes ambientes acabam se confundindo em um modelo se não único, pelo menos semelhante. O ritmo circadiano que marcava o dia-a-dia camponês está sendo agredido cada vez mais uma vez que subordinamos nossas vidas à batuta dos horários televisivos e das atividades do mundo virtual. Não importando onde, ontem deixou de ser um lugar a ser repetido já que hoje indica um amanhã afastado da biologia que será incorporada sabe-se lá como à virtualidade tecnológica.

Então se intranquilizam as almas e insoniam-se as pálpebras. À mente negamos o repouso enquanto corpos tensos movem-se nos leitos tão desordenados quanto as emoções, sensações, desejos, pensamentos e sentimentos tantas vezes açoitados pelas tempestuosas vidas.
Clonazepam e primos são muletas para estas paralisantes mobilidades. Longe de mim demonizar as medicações. Reconheço situações onde têm elas o condão de ajudar, porém noto que na intranquilizante vida a que nos submetemos os próprios profissionais de saúde desordenam-se nos atendimentos tornados rápidos por obrigatórias correrias implicadas em um sistema que obriga à pressa para consecução das metas bancárias ou estatísticas. Então a queixa de insônia deixa de ser uma questão na vida de um ser e dentro de um contexto. A pressa impõe uma solução sem profundidade e uma medicação rápida e eficaz, ainda que a efetividade no tempo seja questionável. A solução se mede em milímetros da corrida dos números no écran do relógio digital e não na medida da vida vivida vividamente.

Superficializamos a vida por pura pressa e descolamos do profundo em nós. Vai daí que a família PAM torna-se uma essencialidade, assim como suas corolárias sequelas.


Recebam um beijo sonolento de Aureo Augusto.

3 comentários: