segunda-feira, 17 de agosto de 2020

 

SIMPLÓRIO

Desde que a vida se desdobou

A meus olhos em suas pequenas maravilhas

Ridículos monstros, belezas insuspeitas guardadas

nos recantos recanteados do mundo

o mundo me ensinou a ser simplório.

 

Nesse então foi quando aprendi a amar

e entregar-me com o corpo

como se esse fosse velas ao vento

meu ser: velas ao vento, brisas, furacões

o que às vezes me faz chorar litros

assim como rir tão feliz como pinto no lixo.

 

Quanto me reconheci fraco

pude usar o machado a cortar troncos

pois antes, povoado por minha suposta força

e por minha ampla vaidade, rompia

as mãos na tarefa triste e inglória

sem saber usar a fraqueza no conduzir

o pesado instrumento de trabalho.

 

Na mesma medida em que o mundo

denunciou-me e me fez cansar

da própria vaidade, sem deixar de amá-la

como a um brinco enfeitando o espírito

sem que da alma a vaidade fazer-se ama

descobri o oceano de humildade

em meu ser feliz no silêncio.

 

Agora saio pela manhã

beijando o orvalho como se fosse

os lábios da minha amada

regalo-me luxuosamente ao ver

flores miúdas, cogumelos, ou capim

dobrando-se manso à brisa.

 

O entusiasmo me cega frente

à borboleta, ao besourinho, vagalume

e corro buscando alguém pra contar

a beleza da bobagem e falo e conto

canto alto como se não fosse desafinado

e danço louco como se dançar soubesse.

 

Aprendi a me sentir grato

até com uma queda horrível

que tomei alguns meses atrás

porque por ela descobri belezas

insuspeitas, e lições inesquecíveis;

 

E, sendo homem de pouca fé

o grande mistério inda assim

torna-se em milhares de mãos

que delicadas me acariciam

e sei que é Ele, embora muitos

amorosamente me alertem

que nada mais é que a brisa

que é o vento roçando a minha pele.

 

Por fim abdiquei de conhecer tudo

sem deixar de gostar do saber e ler

fiz de mim o que sou: um tolo,

bobo tal que todos riem

de minha tolice e se regozijam

como a minha parca sabedoria

e minha tão alegre vivaz alegria

só por estar vivo e saber do meu tino!

 

Choro algumas noites, padeço saudade

tristeza, dor, decepção, ânsia do que não sei

sim, choro e esse é um dom: chorar

depois me desgraço a rir

e a minha gargalhada desregrada

ilumina a noite com a luz dos simples

simplórios que cada dia mais serei.

                              Em 15/8/20



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